victor heringer,
por quê?

o amor dos homens avulsos é o primeiro e único livro seu que li. tal título tão bonito, de ares portugueses; etc.
Hilda Machado só foi publicada depois de morrer; depois do suicídio. dez anos depois. chegou como uma rajada elegante & mercadológica; lembro-me que seu livro esgotou na flip. nuvens se chama, e eu pensando que queria definir suas poesias como nuvens (assim se parecem). por quê?
você pode me dizer que eu não entendo da morte. eu a vivi, sim, mas não esta que é da escolha do indivíduo; só o sopro de Deus no cangote dos enfermos, o hálito grotesco e sussurrante nas camas brancas de hospital, a última baforada que desmonta o doente cansado. os doentes, no ápice, estão exauridos, parecem suplicar. minha bisavó, meu avô, minha irmã, incontáveis antes de'u existir.
mas também não são doentes os que se suicidam? sinto-me numa bolha de ignorância infinita sobre o ato de tirar a própria vida de uma vez. para compensar, fumo. mas somos doentes, todos, não é? minha culpa mandou te perguntar.
mas eu não me esqueço do cheiro da doença. eu não esqueço por um minuto o cheiro dela.
é triste constatar que seu nome brilhou mais depois da morte precoce e mal explicada; mas quem sou eu para dizer algo assim? também eu o conheci assim. eles não declararam o motivo da morte; dizem que isso é incentivo, o que é incentivo? tudo que se mexe nesse mundo é um incentivo para se pensar em morte, não é?
vou tentar me recompor e falar do que interessa; fazer valer tal carta. uma carta ao além, ao primeiro céu dos sete que se é necessário atravessar para juntar-se à Árvore; à alguma árvore, de desejos, de vidas, frutos, deusezinhos pendurados nos galhos se contorcendo boquinhas de choro dos bebês. (os bebês tudo e nada sabem, decerto alguém disse isso antes)
você tem uma coisa envolvente, uma poesia bonita, imã de contrastes, fluxos de consciência vindouros (vindouros porque meu peito os acolheu), li teu livro encostada às paisagens urbanas da janela do ônibus e as frases nelas se deitavam contentes: sol, quinquilharias, primeiro amor, esse trecho que copiei no celular porque sentia sono "e passaram a vida inteira parados no trânsito, reclamando de sono, e de fome, e de falta de amor. e de vez em quando trepam com um estranho que conheceram no ônibus e dormem abraçados no motel, porque estão sempre com muito sono", porque a sociedade do cansaço parece ser a filosofia imediata que responderá nossos anseios (como foi amores líquidos anos atrás, etc).
quando terminei de ler o livro não escrevi nada e perdi a meada do primeiro amor. quis contar minha história, mas agora não quero mais; que adianta? se ainda fosse primeiro amor com um irmão adotado tardiamente e assassinado de forma brutal, violência racial e homofóbica atravessada por paixão e saudades; mas esta é a história do seu protagonista.
seu protagonista, aliás, me incomodou às vezes. às vezes, eu senti ele muito próximo. próximo demais, qual um zoom da lente que acaba desfigurando o todo. aquele espelho de aumento para (acho?) arrancar pelinhos, ver cravinhos. quando me olhei num desses pensei péra, não sou esse monstro, não. que ele viva apenas o eco do seu passado, tudo bem, conheço-os também; mas a auto-comiseração das veias verdes na pele branca e da perna manca, não sei. Natalia Ginzburg comenta num dos contos em pequenas virtudes, que quando começou a escrever escolhia personagens com defeitos, mancos, caolhos, mudos; porque achava que só assim poderia dotá-los de algum interesse, alguma profundidade. e só depois ela abandonou esses tipos, porque eram como muletas, máscaras; Natalia se dedicou à escrita do real, do próximo, do pequeno, respondeu à guerra com a miudeza das coisas. qualquer um, ao escrever, se interessa pelas ausências: da perna, da fala, de algum sentido, do pensamento lógico. afinal, por quê bela se coxa?, o prestígio de o som e a fúria, a menina muda do relato de um certo oriente. mas há algo que me incomoda. uma tentação desenfreada em denegrir, esfolar a seiva do sujeito e perder algo no caminho. talvez seja algo que li numa entrevista tua, de se tornar o outro, se preencher do narrador. doloroso isso, porque feito de amor e ódio demais. cai este trecho como uma luva:
Eu acho que o ódio está no mundo em consistência de nuvem, uma coisa que fica ao alcance de quem quiser pegar, deixar fermentar e moldar como quiser. É um apêndice da cabeça. Não tem dono nem mira certa, não dá para prever nem controlar muito bem, é uma gripe bulbônica se espalhando, uma peçonha desembestada, lava de vulcão, onda tsunami, não sei a comparação certa. Depois da bengalada que eu dei nele, meu ódio perdeu o nome e o formato de Cosmim. Aí, de um golpe, comecei a amá-lo.
duas outras passagens que vão e voltam ao longo do romance me chamaram a atenção: o sorriso de Joana e Maria Aína cozinhando a língua do boi.
a língua de boi: na pág. 22,"Quer ver, ossí menino, esse cheiro sabe o que é? Todas as palavras que o boi não sabe falar". na pág. 45: Eu ouvi, sim. Ninguém vai dizer que eu não ouvi a língua murmurando no prato. Mas é claro que não entendi o que dizia. na pág. 92: língua com língua, lembrando a língua de boi que a Maria Aína fazia. língua como nojo e desconhecido, silêncio, e por fim, desejo. língua de boi e amor homoerótico, é? bonito mesmo.
a Joana: na pág. 14 era uma menina aberta, sorria com os dentinhos. depois, na pág. 49, o sorriso aberto foi rareando, Joana adulta sorri daquele jeito só como prenúncio de notícia ruim. e novamente, na pág. 121, aí ela arreganhou aquele sorriso dela, de quem quer ouvir/contar segredos. foi esquisito: ela abriu o sorriso, mas o resto da cara ficou triste, só a boca mudou. só vi esse sorriso assim duas vezes: quando morreu Cosmim e quando morreu mamãe. não sei porquê mais. porquê ela era uma menina aberta, tinha o sorriso aberto, depois, trágico e cínico. menina aberta era tão bonito, e então, estragou.
por fim, deixo aqui um último trecho. espero que não seja chato esse tanto de trecho, mas foi o jeito que eu quis te falar. deixo-o aqui, dolorida (meu ódio inconciliável, este, de perder a memória exata de quem se foi).
e digo adeus, até o próximo.
Meu Cosmim foi perdendo os traços ao longo do tempo. Já não lembro mais como era seu rosto, só umas linhas gerais, uns nacos requentados milhões de vezes na imaginação: a cara de quando ele provou limonada sem açúcar, a retorção da primeira vez. Um sorriso cansado em fim de pelada. (…) Lembrei tantas vezes essas lembranças que agora o que eu vejo não é mais a cara de carne e cartilagens do meu amigo, mas uma imagem desgastada, soterrada embaixo de quatorze mil memórias. E até mesmo esse rosto ralo vai desaparecendo na espuma, focinho de hipopótamo submergindo em água barrenta.
p.s.: resta-nos lembrar. esforçar-se. por quê? é palavra que corta a língua.